Por que criar histórias é processar dados com alma
- Guto Aeraphe
- há 1 dia
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Muitas vezes acreditamos que a arte e a tecnologia habitam mundos opostos, mas no audiovisual, desde o seu início, essa fronteira sempre foi muito tênue. Existe uma frase poderosa da pesquisadora Brené Brown que resume essa intersecção com perfeição:
"Talvez as histórias sejam apenas dados com alma".
No contexto da criação para telas, essa ideia ganha uma dimensão prática avassaladora. Criar um roteiro ou um projeto audiovisual não é um ato de pura magia isolada, mas sim o processamento de uma série de variáveis dramáticas, técnicas e de mercado que, quando organizadas sob a ótica da sensibilidade humana, ganham vida e propósito. Foi a partir dessa visão que estruturei o Lean Film Design, concebendo-o como uma espécie de algoritmo analógico capaz de guiar o autor através do caos criativo.
Para compreendermos essa ponte, precisamos primeiro entender dois conceitos básicos: o algoritmo e o Lean.
Em termos fundamentais, um algoritmo é uma sequência finita de instruções claras e lógicas voltadas para resolver um problema ou realizar uma tarefa específica. Embora o associemos quase exclusivamente à computação, o algoritmo é, na verdade, um mapa de processos. Ele opera sob uma estrutura simples: uma entrada (informação bruta), um processamento (regras lógicas de organização) e uma saída (o resultado final). Escrever uma história é, de certa forma, "rodar" um algoritmo na nossa cabeça: o "input" são as ideias e referências; o processamento é a estrutura dramática; e o "output" é a história que, finalmente, se conecta ao público.

E para tirar essas histórias do papel com eficiência, o criador moderno precisa adotar uma mentalidade estratégica e ágil. É aqui que o universo do audiovisual encontra o conceito Lean, originário das indústrias e popularizado pelo ecossistema de startups.
No mundo dos negócios, ser Lean (enxuto) significa focar na criação de valor eliminando desperdícios e aprendendo através de ciclos constantes. Nas startups, esse processo é materializado pelo MVP (Produto Mínimo Viável). Ao transpor essa lógica para o audiovisual, surge o Conteúdo Mínimo Viável (CMV). Em vez de escrever centenas de páginas esperando que elas façam sentido apenas no final, o roteirista prototipa a narrativa e testa a eficiência de um conflito antes mesmo de ele virar diálogo. O que permite descobrir, de forma ágil, se a essência daquela história realmente conecta com o público.
Essa ideia foi aprimorada no conceito de Design Sprint, que foi desenvolvido no Google com o objetivo de acelerar a validação de ideias e a resolução de problemas complexos em um curto espaço de tempo.
E foi dai que o Lean Film Design nasceu, com o propósito organizar o pensamento lógico e oferecer os parâmetros narrativos para que você possa focar no que realmente importa: a emoção.
A adaptação deste conceito para o audiovisual conduz o produtor por cinco etapas fundamentais: entender, definir, projetar, prototipar e testar.
Na primeira delas, que é entender, o foco é o mergulho profundo nas referências e nas necessidades da audiência. Na etapa seguinte, Definir, se estabelece o núcleo dramático e os objetivos do projeto. Na sequência, a fase de Projetar dá forma à arquitetura narrativa, preparando o terreno para a Prototipagem, onde a ideia ganha sua primeira versão material. O ciclo se encerra com a etapa de Testar, permitindo que o criador receba feedbacks reais e ajuste a rota antes de investir recursos definitivos na produção.

E para que cada uma dessas fases seja executada com precisão, o método utiliza diversos canvas específicos, que funcionam como guias visuais e estruturais para cada etapa do desenvolvimento, garantindo que o autor explore todo o potencial da sua história. Junto com o uso dos cards narrativos, que funcionam como gatilhos mentais, o processo criativo se transforma em algo tangível, que permite visualizar a evolução do projeto passo a passo, facilitando a transição da ideia abstrata para a estrutura concreta, e permitindo que todos os elementos da narrativa sejam analisados de forma integrada.

O método ainda permite a integração e uso da Inteligência Artificial de forma ética, como uma ferramenta de potencialização humana, atuando na análise de dados e oferecendo insights baseados em métricas, acelerando o ciclo de desenvolvimento sem jamais substituir a sensibilidade única do autor. Para isso foi criada a plataforma Roteirista Pro, que abrange diversas formas de análise dramatúrgicas e de mercado para auxiliar no desenvolvimento da narrativa ou projeto audiovisual.

O grande desfecho da metodologia Lean Film Design é a criação do Film Design Document (FDD). Concebido como uma evolução da tradicional "Bíblia de Séries", o FDD é um protótipo completo do projeto audiovisual. Sua função principal é servir como a ferramenta definitiva de pitching, sendo o documento de referência que você apresentará a produtores, investidores, canais de streaming ou utilizará para a inscrição em editais. Ele não é apenas um compilado de anotações, mas uma arquitetura organizada que prova, através de dados e estrutura, que a sua história é tanto artisticamente potente quanto comercialmente viável.
Assim, ao finalizar o ciclo do Lean Film Design, o criador deixa de ser apenas alguém com uma boa história e passa a ser um profissional de mercado com um projeto maduro para ser produzido e distribuído nas telas contemporâneas.



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